quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Feriado 15 de agosto: da devoção brasileira à Nossa Senhora ao culto chinês de Fuxi e Nüwa

Embora o 15 de agosto não seja feriado nacional no Brasil, a data carrega muitos significados religiosos e históricos em diferentes regiões. 

Nino Rhamos: Feriado 15 de agosto no Brasil e Festival de Fuxi e Nüwa na China — celebrações locais que mantêm viva a memória cultural.

Em Belo Horizonte (MG), é dia de Nossa Senhora da Boa Viagem, padroeira da cidade, cuja devoção remonta ao século XVIII. Já em Fortaleza (CE), é celebrada a Assunção de Nossa Senhora, enquanto em Tocantins é celebrado o Dia do Senhor do Bonfim

Outros municípios e estados atribuem significados próprios à data. No Pará, por exemplo, existe uma relação com à Independência do Brasil em 1823. Em Vitória da Conquista (BA), a data está associada à Nossa Senhora das Vitórias. Em Maringá (PR), Nossa Senhora da Glória.

Essa pluralidade reforça a importância das culturas e tradições locais na construção do calendário cívico-religioso brasileiro. Assim, o feriado 15 de agosto se torna um ponto de encontro entre memória, devoção e identidade coletiva, ainda que suas celebrações permaneçam restritas a âmbitos municipais ou estaduais. 

Mas qual a relação entre o 15 de agosto no Brasil e a China?

Um paralelo cultural

Na China, um evento com características semelhantes — não por conteúdo religioso específico, mas por sua natureza local e regional — é o Festival de Fuxi e Nüwa, realizado anualmente na província de Henan, na planície central, às margens do lago de Huaiyang. 

Assim como o 15 de agosto brasileiro, este não é um feriado nacional, mas uma celebração profundamente enraizada na memória e identidade de uma comunidade.

Nino Rhamos: Feriado 15 de agosto no Brasil e Festival de Fuxi e Nüwa na China — celebrações locais que mantêm viva a memória cultural.
Celebração de Fuxi e Nüwa.
NJ-PBS

O festival reúne cerca de um milhão de pessoas, principalmente agricultores, em torno de um complexo de templos com origem no período das Primaveras e Outonos (cerca de 700 a.C.). É dedicado às divindades primordiais Fuxi, criador das “leis da humanidade”, e Nüwa, associada ao casamento, à fertilidade e à prosperidade. 

Um dos rituais mais importantes é a veneração de Nüwa consertando o pilar do céu e segurando o primeiro ser humano moldado com barro e sangue. 

Nino Rhamos: Feriado 15 de agosto no Brasil e Festival de Fuxi e Nüwa na China — celebrações locais que mantêm viva a memória cultural.
Representação mítica de Fuxi e Nüwa

Mulheres que desejam filhos tocam uma pedra sagrada diante do templo, perpetuando um gesto ancestral que ecoa práticas votivas de outras culturas.

Leia também: Adivinhação e tradição: o que nunca morre na China?

O festival carrega ainda o legado de rituais imperiais da dinastia Song, posteriormente revitalizados na dinastia Ming. Embora tenha sido suspenso e seus templos vandalizados durante a Revolução Cultural, o culto ressurgiu nos anos 1980, integrado às feiras populares e impulsionado pela política de “Reforma e Abertura”

Nessas feiras, além de apresentações artísticas, dança e música, ocorre a troca simbólica de terra entre comunidades, reforçando o vínculo com o lugar sagrado.

Resistência cultural e continuidade da memória

A permanência dessas celebrações, tanto no Brasil quanto na China, revela um traço antropológico importante. A resiliência das tradições locais diante de mudanças políticas e sociais

No Brasil, as festas católicas absorvem elementos das culturas indígena e africana, compondo uma religiosidade plural. Na China, o culto a Fuxi e Nüwa também representa um longo processo histórico — o culto a Fuxi e Nüwa são os elementos primordiais da mitologia chinesa e data de pelo menos 3.000 anos atrás —, de união entre elementos de diversas etnias locais, sendo, inclusive, um elementos importante de construção da coletividade chinesa que hoje se expressa na ideia de identidade nacional. 

Nino Rhamos: Feriado 15 de agosto no Brasil e Festival de Fuxi e Nüwa na China — celebrações locais que mantêm viva a memória cultural.
Celebração do feriado 15 de agosto em Tocantins.
Rafael de Oliveira/Governo do Tocantins

Nesse sentido, em ambos os contextos, o que se celebra não é apenas um evento religioso, mas também um marco identitário. É a afirmação de pertencimento a uma comunidade específica, a partir de narrativas que reforçam a noção de ancestralidade. 

No Brasil, a devoção a padroeiros locais cria um elo afetivo e histórico entre cidade e fiéis; na China, o culto às divindades primordiais reforça a ideia de que “todos somos da mesma família”, uma memória coletiva que antecede fronteiras políticas contemporâneas e ultrapassa, embora não elimine, características étnicas mais específicas.

Assim, o feriado 15 de agosto, em suas múltiplas interpretações, e o Festival de Fuxi e Nüwa, cada qual em seu território, mostram como datas festivas funcionam como âncoras culturais, porque ligam passado e presente, conectam indivíduos por meio de símbolos partilhados e mantêm viva a herança espiritual e social de um povo.

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Temas abordados:
Feriado 15 de agosto, Festival de Fuxi e Nüwa, Nossa Senhora da Boa Viagem, Assunção de Nossa Senhora, 中国节日文化, antropologia visual China, visual anthropology China, 中国视觉人类学

Este texto faz parte da categoria China contemporânea.
Nino Rhamos

Nino Rhamos é escritor, músico formado pela Escola de Música Villa Lobos e mestre em antropologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Tem mais de 30 anos de interesse pela China e atualmente esta finalizando o doutorado sobre cinema e etnicidade chinesa na primeira metade do século XX. Também atua desde 2010 com edição de vídeo e, mais recentemente, com consultoria intercultural. No dia a dia, também segue ajudando amigos chineses que querem melhorar o português. Contato pelo formulário na coluda lateral.

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